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Por Newton Nunes
Ciência e TecnologiaBrasília
Classificar uma rede social inteira como 'horrorosa' e exigir o seu bloqueio 'de qualquer forma' revela uma visão tacanha e simplista sobre a dinâmica da tecnologia.
Por Fred Kidman · 6 de agosto de 2026 às 22:39 · 4 min de leitura

Janja busca forma de bloquear rede social no Brasil / Reprodução

Reprodução / Redes sociais
Na arena política e no debate público brasileiro, poucas pautas despertam tanta polêmica quanto as tentativas de ingerência estatal sobre o universo digital. A recente fala da primeira-dama Janja Lula da Silva, cobrando abertamente do Ministério da Justiça e da Advocacia-Geral da União (AGU) instrumentos legais para tirar a plataforma Discord do ar no Brasil, reacendeu uma discussão perigosa: até onde o poder público pode ir sob o pretexto de combater abusos na internet?
Classificar uma rede social inteira como "horrorosa" e exigir o seu bloqueio "de qualquer forma" revela uma visão tacanha e simplista sobre a dinâmica da tecnologia. Apelar para o apagão de um serviço digital inteiro não é gestão pública eficiente; é demonstração de impotência e flerte com o autoritarismo.
Não se nega que o ambiente virtual guarde nichos nocivos, onde criminosos se aproveitam do anonimato para praticar ilícitos. Contudo, derrubar uma plataforma global utilizada diariamente por milhões de estudantes, trabalhadores, gamers e comunidades virtuais é o equivalente a fechar uma rodovia inteira só porque criminosos a utilizaram em uma rota de fuga.
Em minhas décadas de profissão acompanhando os bastidores do poder, cansei de ver remédios errados e populistas que acabaram por matar o paciente sem curar a doença. Exigir banimentos sumários ignora completamente a arquitetura do direito digital e atropela garantias fundamentais de liberdade de expressão e de acesso à informação.
O que o país precisa não é de discursos emocionados ou apelos por censura, mas do fortalecimento real das instituições de investigação. O papel do Estado é aparelhar a Polícia Federal e as polícias civis para que rastreiem, identifiquem e punam os CPFs dos criminosos, além de exigir das empresas de tecnologia (big techs) o cumprimento de decisões judiciais específicas dentro do devido processo legal.
Quando uma figura de destaque da República defende soluções extremas e atalhos jurídicos para banir ferramentas, o sinal emitido é o de que o governo prefere a canetada fácil à inteligência investigativa. Derrubar o Discord não elimina os maus intencionados; eles apenas migrarão para outra plataforma no minuto seguinte, enquanto a população cumpridora da lei paga a conta do bloqueio.
A verdadeira segurança digital se constrói com rigor técnico, regulação equilibrada e atuação cirúrgica da Justiça — nunca com reações emotivas que flertam com o controle da informação.
O Brasil não pode ceder à tentação de impor apagões digitais toda vez que o poder público se mostrar incapaz ou preguiçoso para policiar o território virtual. Combater o crime é dever do Estado; calar a ferramenta e prejudicar milhões de usuários é abuso de poder.
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