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PolíticaBrasília
Recurso da PF à AGU e cobrança sobre direção da corporação tensionam limites entre supervisão judicial e autonomia investigativa no caso INSS.
Por Newton Nunes · 4 de agosto de 2026 às 03:08 · 3 min de leitura

Ministro André Mendonça - Reprodução / Redes sociais

Lulinha - Reprodução / Redes sociais
A relação entre o Supremo Tribunal Federal e a Polícia Federal alcançou aquele patamar de climão institucional que faria inveja a qualquer grupo de WhatsApp de família em véspera de eleição. O pivô da discórdia é o inquérito que apura um suposto tráfico de influência envolvendo o empresário Lulinha dentro do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS). O ministro André Mendonça, que virou relator da bronca por sorteio, autorizou as investigações e deu o pontapé inicial para uma reação em cadeia daquelas.
A PF não perdeu tempo e correu para a Advocacia-Geral da União para reclamar de suposta ingerência do magistrado nas suas atribuições. Do outro lado do balcão, o gabinete de Mendonça não ficou atrás e passou a cobrar explicações formais da direção da corporação, comandada por Andrei Rodrigues, sob a suspeita de uma possível obstrução de Justiça. É o choque clássico entre a prerrogativa de supervisão judicial e a sanha de independência técnica dos delegados.
Quando a Polícia Federal decidiu bater na porta da AGU contra as medidas ordenadas por André Mendonça, a briga ganhou contornos oficiais. A cúpula policial defende que as canetadas do ministro invadem o território sagrado de suas funções constitucionais. O eterno dilema brasileiro ressurge: onde termina a supervisão dos inquéritos pelo STF e onde começa a autonomia do delegado para investigar sem pio de cima?
Historicamente, o compasso dessa dança vive desregulado. A Constituição garante a separação dos Poderes, mas amarra a polícia ao controle externo do Ministério Público e à tutela do Judiciário. Ao buscar guarida na AGU, a corporação tenta um escudo do governo federal para proteger seus métodos. O problema é que analistas atentos já torcem o nariz para o risco óbvio de politizar o que deveria ser estritamente técnico — e olha que de politicagem o brasileiro já está com a cota bem esgotada.
A resposta do gabinete de Mendonça veio com aquela fineza irônica que o rito processual permite. O ministro passou a investigar se a conduta do diretor-geral Andrei Rodrigues cheirava a obstrução de Justiça no caso do INSS. Dias depois, cobrou explicações formais da chefia da PF, mas optou por segurar a mão e não abrir, pelo menos por enquanto, um inquérito dedicado exclusivamente a fritar o chefe da polícia.
Essa cautela tem cheiro de tentativa de descompressão antes que o parquinho pegue fogo de vez. No cardápio de poderes do STF há ferramentas bem mais indigestas, mas o bom senso — artigo muitas vezes em falta na praça dos Três Poderes — recomendou segurar os brios. O estrago, porém, já está feito, mostrando que os canais tradicionais de conversa entre o tribunal e a polícia estão mais trancados que porta de cofre em sexta-feira santa.
No fim das contas, quem assiste a esse duelo de bastidores não ganha absolutamente nada. Inquéritos que miram figuras de relevo político pedem uma higidez técnica impecável justamente para que ninguém possa apontar o dedo depois. Quando o juiz e o investigador decidem lavar roupa suja em público, quem paga a conta da desconfiança institucional é o contribuinte — aquele mesmo que trabalha o mês inteiro e espera o mínimo de seriedade na apuração de desvios no Estado.
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