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Mabel e a Câmara: a perigosa queda de braço que pune Goiânia

Entre ausências no plenário, devolução de cargos por Luan Alves e discursos inflamados, o cidadão goianiense assiste à paralisia do poder público.

Por Fred Kidman · 10 de agosto de 2026 às 14:34 · 4 min de leitura

Mabel e a Câmara: a perigosa queda de braço que pune Goiânia

A escalada de tensão entre o prefeito Sandro Mabel e a Câmara Municipal de Goiânia / Reprodução

Mabel e a Câmara: a perigosa queda de braço que pune Goiânia — imagem secundária

Sandro Mabel e Romário Policarpo / Divulgação Câmara Municipal de Goiânia

No teatro político de Goiânia, as galerias da Câmara Municipal frequentemente se assemelham a um tabuleiro de xadrez medieval onde os peões são sacrificados em nome do orgulho dos reis. O ruidoso distanciamento entre o prefeito Sandro Mabel e o Legislativo municipal desenha um cenário de terra arrasada onde apenas um lado perde de forma irremediável: o cidadão comum, aquele que conta os trocados para pagar o transporte coletivo — que se mantém congelado na tarifa de R$ 4,30 — ou espera meses por uma consulta médica. A queda de braço ganhou contornos dramáticos desde o segundo semestre de 2025 e arrasta-se pelo ciclo de 2026, expondo as entranhas de uma governabilidade fragmentada.

A revolta dos cargos e o silêncio do plenário

Para entender a atual temperatura da crise, é preciso recuar ao momento em que as costuras políticas começaram a se desfazer em praça pública. Em agosto de 2025, o vereador Luan Alves tomou uma decisão drástica ao abrir mão de todos os cargos indicados que mantinha na estrutura da Prefeitura de Goiânia. O gesto, que muitos nos bastidores interpretaram como uma declaração formal de hostilidade, expôs a fragilidade das alianças do Paço Municipal com setores importantes da Câmara.

Mabel tentou estancar a sangria nomeando Wellington Bessa como o novo líder do governo no Legislativo em setembro de 2025. Mas a diplomacia de gabinete parece não ter surtido o efeito desejado. No retorno dos trabalhos legislativos, em fevereiro de 2026, o prefeito optou por não comparecer ao plenário, escalando sua vice-prefeita, Claudia Silva, para representá-lo. Para bom entendedor de política, a ausência de um chefe de Executivo em um momento tão simbólico não é apenas uma questão de agenda; é um recado de distanciamento que costuma custar caro nas votações de interesse público.

Do meio ambiente à saúde: o custo real da paralisia

Os desdobramentos dessa guerra fria não ficam restritos aos tapetes vermelhos do poder. Eles sangram diretamente nos serviços básicos da capital. Em junho de 2026, o cenário de beligerância ganhou contornos ambientais quando Mabel e Thales Jayme, presidente da Agência Municipal do Meio Ambiente (AMMA), trocaram acusações públicas acaloradas após duras críticas sobre o corte de árvores em Goiânia. Enquanto o asfalto derrete sob o sol do Cerrado, os caciques políticos duelam sobre quem é o verdadeiro culpado pela degradação urbana.

Mas é na saúde pública que o calcanhar de Aquiles se mostra mais exposto. O prefeito Sandro Mabel chegou a disparar um ultimato gravíssimo envolvendo o Instituto de Assistência à Saúde dos Servidores Municipais (Imas). Ele declarou publicamente que, caso a empresa contratada para gerir o sistema não atinja as metas em um ano, o próprio instituto poderá deixar de existir. Para o funcionalismo que depende desse atendimento e já vive sob a corda bamba financeira, o aviso soa como uma sentença de desamparo.

Quem paga a conta no final do dia?

Como jornalista que já viu impérios políticos locais subirem e caírem nas últimas quatro décadas, recuso-me a assistir a esse espetáculo com a passividade burocrática de quem apenas digita comunicados oficiais. A história nos ensina, desde a Grécia Antiga, que quando os deuses duelam no Olimpo, são os mortais na terra que colhem as tempestades.

A governabilidade não é um favor que a Câmara faz ao prefeito, tampouco uma concessão que o Paço outorga aos parlamentares. É um dever constitucional. Enquanto líderes se esquivam do debate direto e vereadores batem em retirada de suas bases de apoio, Goiânia assiste, estupefata, ao avanço do matagal nas praças, à crise do lixo — marcada por constantes atrasos de repasses ao consórcio e falhas operacionais na coleta e transbordo urbanos — e à incerteza sobre o futuro da assistência médica de milhares de famílias. A política real deveria ser sobre as pessoas, não sobre quem manda mais na Avenida Assis Chateaubriand.

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