Goiânia enfrenta deficit de 2,6 mil servidores na educação municipal
Por Ricardo Camargo
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Consórcio Limpa Gyn acumula processos e aditivos sob suspeita enquanto Tribunal de Contas exige balanças para auditar pesagem dos resíduos.
Por Fred Kidman · 17 de agosto de 2026 às 23:21 · 4 min de leitura

Consórcio Limpa Gyn / Reprodução
Desde os tempos da Roma Antiga, quando a Cloaca Máxima foi erguida para sanear a urbe imperial, a gestão dos resíduos sólidos define o limiar entre a civilização e o caos. Em Goiânia, contudo, esse cordão umbilical da saúde pública transformou-se em um labirinto de cifrões e contestações judiciais. O megacontrato da limpeza urbana da capital, que retirou a Companhia de Urbanização de Goiânia (Comurg) do circuito principal do lixo em abril de 2024, vive hoje seu momento mais dramático.
Em junho de 2026, o cenário ruiu: a Justiça anulou o contrato bilionário entre a administração municipal e o Consórcio Limpa Gyn. O negócio, estimado inicialmente em R$ 470 milhões, agora enfrenta o bombardeio de pelo menos sete processos judiciais concomitantes. No centro da disputa está a dignidade do goianiense, que assiste ao encarecimento de um serviço essencial enquanto caminha por calçadas negligenciadas.
O imbróglio começou a se desenhar quando o consórcio privado assumiu o serviço sob a promessa de modernização. No entanto, logo se descobriu que tarefas básicas do cotidiano — como varrição manual, poda de árvores, troca de lâmpadas, limpeza de bueiros e jardinagem — ficaram de fora do escopo de atuação do grupo privado. O cidadão, portanto, continuou órfão do zelo básico em sua porta.
Mesmo com um serviço que deixava lacunas visíveis na rotina dos bairros, a máquina pública continuou a girar suas engrenagens financeiras. Em março de 2026, a gestão do prefeito Sandro Mabel concedeu um aditivo de R$ 20 milhões ao contrato de coleta de lixo. Pouco depois, no mesmo mês, o município estendeu a parceria com a concessionária por mais dois anos, garantindo a sobrevivência de um arranjo que já cambaleava sob críticas.
Para quem vive contando moedas para fechar o orçamento familiar nas periferias de Goiânia, a facilidade com que dezenas de milhões de reais são repactuados causa um incômodo ético profundo. A limpeza urbana, que deveria ser um direito básico indiscutível, virou um ralo financeiro de proporções titânicas.
A aparente calmaria contratual foi pulverizada pela recente decisão judicial que determinou a anulação do vínculo com a Limpa Gyn. Esse nocaute jurídico não ocorre no vácuo. Ele é o ápice de uma série de questionamentos que já haviam levado a Câmara Municipal a instalar uma comissão especial, ainda no segundo semestre de 2025, para esquadrinhar as entranhas desses contratos.
A pressão também vem dos órgãos de controle técnico. Em um movimento paralelo, o Tribunal de Contas dos Municípios (TCM) deu um ultimato de 90 dias para que a prefeitura instale balanças na coleta seletiva e altere radicalmente a metodologia de medição dos resíduos. A suspeita implícita é de que o pagador de impostos goianiense esteja pagando por um peso fantasma, sem a devida comprovação do que é de fato recolhido.
A falta de transparência na pesagem do lixo é o sintoma mais agudo de uma gestão que parece ter perdido o controle de suas planilhas. Quando o poder público não consegue sequer pesar com exatidão o que coleta, abre-se uma avenida para o desperdício de recursos que deveriam abastecer postos de saúde e escolas de tempo integral.
O jornalismo corajoso não pode se calar diante do absurdo de ver milhões escoarem enquanto a população padece com a falta de assistência básica. Como repórter que já viu de tudo nesta capital, sei que a sujeira nas ruas não é apenas um problema estético; é um vetor de doenças, um convite ao desespero urbano e a prova cabal de que a prioridade fiscal muitas vezes ignora a realidade humana.
A anulação do contrato joga Goiânia em uma perigosa incerteza operacional. Como será feita a coleta nos próximos meses? Teremos novos contratos emergenciais costurados às pressas nos gabinetes? O que se espera, agora, é que a justiça prevaleça e que o dinheiro do trabalhador goiano pare de alimentar contratos que não sobrevivem a uma auditoria séria.
Por Ricardo Camargo
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