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O país do segundo turno perpétuo e da amnésia legislativa

Enquanto pesquisas confirmam o estreitamento da polarização presidencial, o esquecimento coletivo sobre o voto para o Congresso expõe o abismo da nossa representação.

Por Sandra Bernardes · 12 de agosto de 2026 às 13:17 · 4 min de leitura

O país do segundo turno perpétuo e da amnésia legislativa

Como jornalista, há algo que me incomoda profundamente na liturgia que envolve a divulgação das pesquisas eleitorais. Entramos no período crítico das convenções partidárias e do registro de candidaturas para o pleito de 2026, e o roteiro se repete à exaustão. A engrenagem dos institutos de pesquisa — que agora despejam números quase diariamente, com levantamentos recentes da Quaest, BTG/Nexus, PoderData e CNT/MDA — funciona como um termômetro obsessivo focado quase que exclusivamente em uma única temperatura: o duelo pelo Palácio do Planalto.

Os dados mais recentes mostram um cenário de acomodação de forças que merece ser analisado sem paixões ideológicas, mas com rigor metodológico. No primeiro turno, a liderança de Luiz Inácio Lula da Silva é testada sob a pressão de um estreitamento de margens. Quando o cenário avança para uma simulação de segundo turno contra Flávio Bolsonaro, a margem de segurança parece derreter. Levantamentos apontam uma diferença que caiu para cinco pontos em simulações recentes, configurando o que os estatísticos apontam como um empate técnico, dependendo da margem de erro aplicada — que demanda checagem precisa.

Essa oscilação não é apenas um detalhe numérico. Ela reflete um país rachado, onde o eleitorado parece ter cristalizado suas posições muito antes do início oficial da propaganda eleitoral. Mas focar apenas nesse cabo de guerra presidencial é um erro crasso de cobertura. É olhar para a copa da árvore e ignorar as raízes que sustentam o poder no Brasil.

O apagão de memória no Legislativo

O que realmente deveria acender um sinal de alerta sobre a saúde da nossa democracia não é quem está subindo ou descendo dois pontos percentuais na corrida presidencial. O dado mais perturbador do atual cenário eleitoral vem de um diagnóstico silencioso: a maioria absoluta dos eleitores brasileiros simplesmente não se lembra em quem votou para os cargos do Congresso Nacional nas eleições de 2022.

Esse esquecimento coletivo — revelado em aferições de opinião pública que mapeiam o comportamento do eleitor — é a tradução perfeita de um sistema político disfuncional. O cidadão gasta meses discutindo o destino da Presidência, mas assina um cheque em branco para deputados federais e senadores. O Parlamento, que hoje detém fatias bilionárias do orçamento público e dita o ritmo de qualquer governo, é eleito sob um manto de invisibilidade que se dissipa no dia seguinte à posse.

Enquanto isso, a ausência de pesquisas nominais frequentes para os cargos legislativos estaduais e federais deixa o eleitorado no escuro. Em Goiás, por exemplo, embora o cenário para o governo estadual traga Daniel Vilela liderando as intenções de voto no primeiro e no segundo turno — com números que demandam constante monitoramento, dada a distância temporal do pleito —, pouco se debate sobre a composição das bancadas que darão sustentação ou farão oposição ao Executivo estadual e federal.

A engrenagem oculta e a fiscalização necessária

A opacidade não se resume à memória do eleitor. Ela se estende aos bastidores do poder judiciário eleitoral, onde as regras do jogo são arbitradas longe dos holofotes da polarização. No Tribunal Superior Eleitoral (TSE), o ministro Nunes Marques assumiu recentemente a relatoria de representações envolvendo a "Master" — um caso técnico que exige fiscalização rigorosa dos fatos, lembrando-nos de que a lisura do processo eleitoral se constrói na vigilância das regras, e não apenas no palpite dos palanques.

Não cabe ao jornalismo endossar tendências ou celebrar a subida de um candidato em detrimento de outro. Nosso papel é cobrar respostas e expor as contradições. Se o eleitor brasileiro continua consumindo a eleição como um Fla-Flu presidencial, enquanto esquece quem enviou para a Câmara e para o Senado, a responsabilidade também é de um ecossistema de informação que prioriza o espetáculo do topo em vez da base.

A polarização entre Lula e Flávio Bolsonaro continuará dominando as manchetes nas próximas semanas, mas o verdadeiro teste da maturidade política do país ocorrerá no silêncio da cabine de votação, para além da disputa majoritária. Se continuarmos votando para o Legislativo sem memória, continuaremos colhendo crises governamentais sem fim.

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