Igreja Casa deve desocupar imóvel por dívida de R$ 800 mil
Por Ricardo Camargo
GoiâniaGoiânia
Ação do Ministério Público aponta desvios superiores a R$ 14 milhões em licitações e contratos públicos manipulados.
Por Fred Kidman · 12 de agosto de 2026 às 17:55 · 4 min de leitura

O cerco mobilizou 40 promotores de Justiça de Goiás / Reprodução

Reprodução / MPGO
Há feridas que não sangram no corpo, mas sangram a dignidade de uma sociedade inteira. Quando o dinheiro suado do trabalhador, que paga seus impostos contado no final do mês, é desviado por engrenagens corruptas, o estrago atinge o coração dos serviços essenciais. É exatamente sob essa lente de urgência humana e fiscal que o Ministério Público de Goiás (MP-GO), por meio do Grupo de Atuação Especial do Patrimônio Público (GAEPP), colocou nas ruas nesta manhã de 11 de agosto de 2026 a Operação Simulatio, um golpe certeiro contra uma suposta organização criminosa especializada em burlar a lei.
A apuração dos investigadores aponta para um cenário alarmante: contratos diretos ilegais e fraudes sistemáticas na fase interna de licitações para fornecimento, montagem e instalação de ambientes e salas modulares — destinados prioritariamente a escolas municipais e redes de assistência social —, sustentados por atas de adesão fraudulentas. O que se desenha nos autos é a engenharia fria de um grupo empresarial sediado em Goiás que, sozinho, faturou mais de R$ 88,3 milhões dos cofres públicos entre 2015 e 2025, gerando um dano ao erário e enriquecimento ilícito estimado em mais de R$ 14 milhões.
Ao todo, o 1º Juízo das Garantias da Comarca de Goiânia expediu 3 mandados de prisão preventiva, 4 medidas cautelares de afastamento de cargo público e 44 mandados de busca e apreensão. O cerco mobilizou 40 promotores de Justiça de Goiás, com apoio da Polícia Militar de Goiás (PM-GO) e de equipes do Ministério Público e da Polícia Civil de São Paulo.
##As diligências foram cumpridas em endereços residenciais, sedes de empresas e órgãos públicos espalhados por 14 municípios goianos:
Goiânia, Aparecida de Goiânia, Senador Canedo, Rio Verde, Itumbiara, Itaberaí, Goianira, Inhumas, Goianésia, Abadia de Goiás, Rio Quente, Uruaçu, Luziânia e Alexânia.
Além das cidades goianas, a operação avançou para o Estado de São Paulo, cobrindo endereços na capital paulista e em Ribeirão Preto.
Quem já viveu o suficiente para ver governos passarem sabe que a corrupção nunca é uma abstração contábil. Cada centavo desviado desses milhões representa uma escola sem estrutura digna, uma creche sem manutenção ou um posto de saúde sem o básico. Para a classe trabalhadora, que enfrenta o transporte lotado e a inflação na mesa de jantar, ver o dinheiro público evaporar em esquemas de colarinho branco é um teste diário de paciência democrática.
O Ministério Público age com rigor ao mirar essas brechas contratuais que parecem inofensivas no papel, mas que na prática funcionam como verdadeiros ralos do erário. As atas de adesão (as famosas caronas licitatórias), ferramentas criadas para dar agilidade à administração, vêm sendo sistematicamente corrompidas por mentes que trocam o interesse coletivo pelo lucro rápido e criminoso.
Com a deflagração da Operação Simulatio, o cerco se fecha. O foco dos investigadores volta-se agora para a análise do farto material apreendido nos 44 endereços — entre mídias, computadores, documentos e registros financeiros —, visando rastrear o caminho do dinheiro, consolidar o bloqueio de bens e identificar eventuais novos agentes públicos e gestores municipais que facilitaram o direcionamento criminoso. É preciso dar nome aos bois e garantir a recuperação dos ativos subtraídos.
A nossa redação segue acompanhando cada desdobramento desta operação. No jornalismo em que acreditamos, o silêncio diante da roubalheira institucional é conivência. Continuaremos de olho, porque proteger o erário é proteger quem não tem voz para exigir respostas nos gabinetes.
Por Ricardo Camargo
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