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A engrenagem invisível que mantém Goiás longe da fome

Enquanto a burocracia estatal engatinha, redes de solidariedade, voluntários e o Banco de Alimentos da Ceasa transformam doações em política de sobrevivência nas periferias goianas.

Por Fred Kidman · 25 de julho de 2026 às 21:09 · 3 min de leitura

A engrenagem invisível que mantém Goiás longe da fome

Divulgação / CEASA

A engrenagem invisível que mantém Goiás longe da fome — imagem secundária

Reprodução / Redes sociais

Nas sombras da suposta bonança econômica de Goiás, uma engrenagem de socorro mútuo opera sem alarde para travar uma guerra diária contra a fome. Nas periferias urbanas e rurais do Estado, o que garante a próxima refeição de milhares de famílias não é o ritmo lento da máquina pública, mas a compaixão organizada da sociedade civil — uma rede que mobiliza estudantes, desportistas e entidades sem onerar o bolso do contribuinte em sua essência voluntária.

Como já nos advertia o geógrafo Josué de Castro em sua clássica "Geopolítica da Fome", a escassez não é um capricho da natureza, mas uma ferida social e política que demanda resposta imediata. Em solo goiano, essa resposta ganha carne e osso nas madrugadas frias das centrais de abastecimento.

Toneladas de dignidade e a força do campo

Um retrato dessa engenharia de sobrevivência pulsa no posto de coleta do Banco de Alimentos na Ceasa goiana. Ali, em apenas dois meses, o esforço concentrado triou e destinou 100 mil quilos de alimentos que teriam o lixo como destino certo. Não estamos falando de frios relatórios estatísticos, mas de toneladas de dignidade que chegam às mesas de quem já perdeu a conta de quantas noites dormiu com o estômago vazio na região metropolitana de Goiânia.

Mas a trincheira é vasta. No esporte, iniciativas como a liderada por Victor na Associação Desportiva Goiânia Futsal mostram como a paixão pelas quadras pode ser convertida em amparo social em massa, conectando doações a dezenas de entidades filantrópicas. É o eco de uma juventude que descobre nos bancos escolares ou nas universidades o mantra definitivo: não é preciso fortuna, é preciso vontade para não ser indiferente.

Resistência política contra a exclusão

Nos bairros historicamente esquecidos, instituições como a Legião da Boa Vontade mantêm-se vivas pelo suor de doadores anônimos. O trabalho vai muito além da entrega burocrática de uma cesta básica; envolve acolhimento psicossocial e suporte a crianças que crescem sob o peso da exclusão estrutural.

Nessa mesma rede, a agricultura familiar cumpre papel estratégico por meio do Programa de Aquisição de Alimentos (PAA), tentando encurtar a distância entre o pequeno produtor e as panelas das cozinhas comunitárias. Fica a lição: a terra goiana é farta, desde que se derrubem as barreiras entre quem planta e quem tem fome. Em Goiás, a solidariedade nunca foi favor — é resistência pura.