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Opinião

Chega de historinhas: a eleição de 2026 exige propostas, não marquetagem

Na fase das convenções partidárias, o eleitor brasileiro é bombardeado por narrativas estéticas de 'futuro contra passado' enquanto os problemas reais do país continuam sem solução prática.

Sandra Bernardes

Artigo de opinião: as ideias e posições expressas são de responsabilidade de quem assina e não refletem necessariamente a linha editorial do Tudo Notícias.

Estamos oficialmente na temporada das convenções partidárias, aquele período crucial entre julho e agosto em que as engrenagens políticas se movem para oficializar as candidaturas de 2026. E o que o eleitor recebe logo na largada? Não são planos de governo detalhados, metas fiscais críveis ou soluções estruturais para a saúde pública. O que nos entregam, mais uma vez, é um duelo de narrativas estéticas cuidadosamente desenhadas em escritórios de marketing.

Como jornalista que passou as últimas duas décadas investigando o uso do dinheiro público e cobrando transparência de governantes, recuso-me a aceitar que o debate político seja reduzido a um concurso de embalagens. E como mãe que cria um filho adolescente e se preocupa diariamente com o futuro da educação e da segurança, sinto uma profunda irritação ao ver o destino do país ser tratado como o lançamento de um produto de consumo.

A lógica da conveniência publicitária ficou evidente na análise recente de um experiente ex-marqueteiro político. Segundo ele, o campo de oposição, simbolizado pela figura do senador Flávio Bolsonaro, tenta monopolizar a ideia de 'futuro', enquanto o PT ainda se ancora em uma propaganda nostálgica do 'passado'. Embora essa leitura técnica faça sentido do ponto de vista estritamente publicitário, ela revela uma tragédia cívica: a política brasileira virou uma guerra de ficções.

O perigo das narrativas vazias de estúdio

O marketing político profissional é pago para contornar o intelecto e atingir diretamente a emoção do eleitor. Ele constrói o candidato idealizado: o 'gestor moderno', o 'defensor dos oprimidos', o 'guardião da liberdade'. Mas por trás do vídeo bem editado e da trilha sonora emocionante, o que existe de concreto?

A realidade é dura e não cabe em um vídeo de trinta segundos para as redes sociais. O Brasil enfrenta desafios fiscais severos, gargalos históricos na infraestrutura e um sistema de saúde sufocado. Quando um candidato se apresenta como 'o futuro' ou 'o salvador do passado', eu quero saber: qual é a planilha de custos? De onde virá o dinheiro para financiar as promessas sem estourar o orçamento e gerar inflação?

Com dezenas de perfis diferentes disputando o eleitorado nacional, o esforço das equipes de campanha será o de moldar cada candidato para caber em um nicho de mercado. O problema é que o país não é um shopping center. O corporativismo que atrasa o Brasil e o discurso vazio de palanque — venha de onde vier — precisam ser confrontados com dados, não com slogans.

O papel do eleitor: cobrar a conta antes de assinar

A propaganda eleitoral oficial ainda não começou, mas o bombardeio digital já está ativo sob o manto da pré-campanha. Este é o momento exato para o eleitorado impor um limite. Não podemos continuar aceitando o papel de espectadores passivos de um teatro de marqueteiros.

Minha postura profissional sempre foi a da desconfiança sistemática em relação ao poder, seja ele de esquerda, direita ou centro. Propostas sem viabilidade técnica são apenas promessas vazias disfarçadas de boas intenções. Que os candidatos apresentem suas propostas com números, metas e prazos.

Se queremos um país maduro, precisamos primeiro de um debate maduro. Menos historinhas construídas em estúdios caros e mais compromisso com a realidade administrativa. A conta da fantasia do marketing sempre sobra para o contribuinte pagar.

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