A ilusão do algoritmo: redes sociais não substituem projeto
Nas eleições de 2026, a corrida digital dita o ritmo, mas o apelo puramente estético esconde o vazio de propostas concretas para o cidadão.
Sandra Bernardes
Artigo de opinião: as ideias e posições expressas são de responsabilidade de quem assina e não refletem necessariamente a linha editorial do Tudo Notícias.
Não me venham com a velha desculpa de que a política mudou de lugar. Defendo que as redes sociais não criaram uma nova forma de fazer política; apenas aceleraram a exposição da mediocridade. Nesta temporada pré-eleitoral, vejo marqueteiros e candidatos obcecados pelo próximo corte de vídeo, pela métrica de engajamento e pelo tom de indignação que garante 15 segundos de fama no feed. Quem domina o algoritmo, dizem, sai na frente. Na minha leitura, quem aposta todas as fichas no espetáculo digital está apenas correndo mais rápido para lugar nenhum.
Como jornalista que fiscaliza o poder há duas décadas, aprendi a desconfiar de tudo o que reluz rápido demais na tela do celular. O império do instantâneo cobra o seu preço: transforma propostas complexas para cidades e estados em slogans vazios de trinta segundos. O eleitor não é cliente de e-commerce para ser fisgado por impulsionamento direcionado ou dança de palanque virtual. Cobrar respostas sérias de quem aspira a cargos públicos exige ir além do filtro bonito e do discurso ensaiado para gerar polêmica controlada.
O abismo entre o engajamento e a gestão
O grande perigo dessa corrida digital é a substituição da competência administrativa pela habilidade histriônica. Curtidas não constroem hospitais, algoritmos não pavimentam rodovias e likes não equilibram contas públicas. Quando acompanho a rotina exaustiva de apuração, o que me irrita profundamente é ver o debate público reduzido a um ringue de torcidas organizadas digitais, onde o contraditório é sumariamente cancelado e o projeto de governo vira mero detalhe irrelevante.
Não nego a importância óbvia de canais diretos de comunicação com o eleitor — a tecnologia está aí para ser usada. O que recuso a aceitar é a normalização de que a eleição se resolva no grito digital. Quem apenas surfa na onda da rede social sem apresentar lastro técnico, histórico limpo e propostas factíveis está prestando um desserviço à democracia. O filtro passa, a eleição passa, mas a conta dos maus gestores cai sempre no mesmo colo: o do cidadão comum.
